Direito de Família

Partilha de Herança Entre Irmãos: Guia Completo para uma Divisão Justa e Sem Conflitos

Equipe SolucioneAqui
2 de janeiro de 2026
9 min de leitura
A fatigued female lawyer reviewing documents with a justice scale nearby, emphasizing stress in legal work.
Foto: KATRIN BOLOVTSOVA/Pexels

Principais Pontos

  • A partilha de herança entre irmãos envolve conceitos como herança, partilha e inventário, que são cruciais para a compreensão do processo.
  • A lei define uma ordem de sucessão, e os irmãos só herdam se não houver herdeiros necessários (filhos, pais, cônjuge), com diferenças para irmãos bilaterais e unilaterais.
  • O processo de partilha pode ser extrajudicial (em cartório, se houver acordo e herdeiros capazes) ou judicial (obrigatório em caso de desacordo, menores ou testamento), e ambos exigem advogado.
  • Desentendimentos podem ser minimizados com diálogo, mediação familiar e, idealmente, através de um planejamento sucessório feito em vida pelo falecido.
  • Custos como ITCMD, custas e honorários advocatícios devem ser considerados, e atrasos no inventário podem gerar multas.

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Introdução: O Legado Familiar e o Desafio da Partilha

A perda de um ente querido é, por si só, um momento de profunda dor e sensibilidade. Quando a esse cenário se soma a necessidade de dividir os bens deixados, a situação pode se tornar ainda mais complexa, especialmente entre irmãos. A partilha de herança não é apenas um processo legal, mas um capítulo emocional que testa laços e exige clareza e compreensão.

Este guia foi elaborado para desmistificar a "Partilha de Herança Entre Irmãos", oferecendo clareza sobre os conceitos, os procedimentos e as melhores práticas para navegar por este processo de forma justa e, sempre que possível, harmoniosa. Entenda como funciona a divisão e o que fazer para proteger os interesses de todos.

1. Desvendando a Herança Entre Irmãos: Conceitos Essenciais

Para compreender a fundo a partilha, é fundamental dominar a linguagem jurídica, mas vamos simplificá-la para você.

O Que é Herança e Partilha?

  • Herança: Imagine que a herança é como uma "bolsa" que contém tudo o que a pessoa falecida deixou: bens (casas, carros, dinheiro), direitos (créditos a receber) e também as obrigações (dívidas).
  • Partilha: É o ato final, o momento em que essa "bolsa" é aberta e seu conteúdo é dividido legalmente entre os herdeiros, de acordo com a lei ou testamento.

Inventário: O Ponto de Partida

Antes de qualquer divisão, é preciso fazer um inventário. Pense nele como um "censo" completo dos bens do falecido. É um processo legal que serve para:

  • Listar e identificar todos os bens e dívidas.
  • Avaliar o valor desse patrimônio.
  • Reconhecer quem são os herdeiros legítimos. Só depois de todas essas etapas é que a partilha pode, de fato, acontecer.

Quem São os Herdeiros? Legitimários vs. Colaterais

A lei brasileira estabelece uma ordem de prioridade para quem herda:

  • Herdeiros Legitimários/Necessários: São os mais próximos do falecido, como filhos, pais e cônjuge (ou companheiro(a)). A lei garante a eles uma parte mínima da herança (a "legítima"), que não pode ser retirada nem por testamento.
  • Herdeiros Colaterais: São parentes mais distantes, como irmãos, tios e sobrinhos. Eles só herdam se não houver nenhum herdeiro legitimário vivo. Ou seja, se o falecido não deixou filhos, pais ou cônjuge, os irmãos passam a ter direito à herança.

A Legítima e a Parte Disponível: Entenda o Testamento

  • Legítima: É a metade (50%) da herança que é obrigatoriamente reservada aos herdeiros necessários. Essa parte não pode ser tocada por testamento.
  • Parte Disponível: É a outra metade (50%) da herança. Sobre essa parte, o falecido pode dispor livremente em um testamento, escolhendo quem ele deseja beneficiar, seja um amigo, uma instituição ou até mesmo um dos irmãos, de forma diferenciada, desde que respeite a legítima dos herdeiros necessários.

Colação e Bens Indivisíveis: Situações Específicas

  • Colação: Imagine que um pai doou um apartamento para um dos filhos em vida. Para garantir que todos os filhos recebam partes iguais da herança, a lei exige que essa doação seja "trazida" de volta ao cálculo da herança no inventário. Isso se chama colação e serve para evitar que um herdeiro seja beneficiado em detrimento dos outros, a menos que o doador tenha expressamente dispensado a colação (o que é raro).
  • Bens Indivisíveis: E se a herança inclui um único imóvel, uma fazenda ou uma obra de arte que não pode ser dividida? Nesses casos, os herdeiros precisam decidir o que fazer: um pode comprar a parte dos outros, o bem pode ser vendido e o valor dividido, ou até mesmo pode ser feita uma venda judicial.

Irmãos Bilaterais e Unilaterais: Diferenças na Divisão

A lei faz uma distinção importante quando se trata de irmãos:

  • Irmãos Bilaterais: São aqueles que têm o mesmo pai e a mesma mãe.
  • Irmãos Unilaterais: São aqueles que têm apenas um dos pais em comum (meio-irmãos). Quando irmãos herdam, se houver tanto irmãos bilaterais quanto unilaterais, os unilaterais herdam a metade do que os bilaterais recebem. Por exemplo, se um irmão bilateral recebe 2, um irmão unilateral recebe 1.

2. Partilha Com ou Sem Testamento: Entendendo as Regras

A presença ou ausência de um testamento impacta diretamente a forma como a herança será dividida.

A Ordem de Sucessão: Quem Herda Primeiro?

A lei brasileira estabelece uma ordem clara de prioridade para a herança:

  1. Cônjuge/Companheiro(a) e Descendentes (filhos, netos): São os primeiros na linha. Se há filhos, eles dividem a herança com o cônjuge, dependendo do regime de bens.
  2. Cônjuge/Companheiro(a) e Ascendentes (pais, avós): Se não houver descendentes, a herança vai para o cônjuge e os pais do falecido.
  3. Cônjuge/Companheiro(a): Se não houver descendentes nem ascendentes, o cônjuge fica com toda a herança.
  4. Colaterais (Irmãos, Sobrinhos, Tios): Se não houver nenhum dos anteriores (cônjuge, filhos, pais), só então os irmãos e seus descendentes (sobrinhos) serão chamados a herdar.

Com Testamento: A Vontade do Falecido Respeitando a Lei

Quando existe um testamento, a vontade do falecido é levada em conta. No entanto, essa vontade não é absoluta.

  • O testamento pode direcionar apenas a "parte disponível" da herança (aqueles 50% livres, como explicamos antes).
  • A legítima dos herdeiros necessários (filhos, pais, cônjuge) é inabalável e deve ser respeitada. Ou seja, ninguém pode ser deserdado injustamente ou ter sua parte legítima reduzida por um testamento.

Sem Testamento (Sucessão Legítima): A Lei Define a Divisão

Na ausência de testamento, a lei é quem define como a herança será dividida.

  • Se os irmãos são os únicos herdeiros (ou seja, não há cônjuge, descendentes ou ascendentes), a herança será dividida entre eles, em partes iguais, com a ressalva da diferença entre irmãos bilaterais e unilaterais que mencionamos.

O Impacto das Doações em Vida (Colação)

Reforçamos aqui a importância da colação. Se um dos irmãos recebeu doações significativas do falecido em vida, essas doações precisam ser consideradas para garantir que a partilha final seja justa e igualitária entre todos, a menos que o falecido tenha deixado claro que aquela doação era uma antecipação da parte disponível da herança.

3. O Caminho da Partilha: Do Início ao Fim

A formalização da partilha segue etapas específicas e pode variar conforme a situação dos herdeiros e o nível de acordo entre eles.

Tipos de Inventário: Extrajudicial (Amigável) vs. Judicial

O inventário, que é o processo que precede a partilha, pode ser feito de duas formas:

  • Extrajudicial (em Cartório): É a opção mais rápida e econômica. Pode ser feita em qualquer Tabelionato de Notas quando todos os herdeiros são maiores e capazes e estão em total acordo sobre a divisão dos bens. A presença de um advogado é obrigatória, mesmo neste tipo de inventário.
  • Judicial (na Justiça): É obrigatório quando:
    • desacordo entre os herdeiros.
    • Existem herdeiros menores de idade ou incapazes.
    • Há um testamento deixado pelo falecido.
    • Nesses casos, o processo tramita na Vara de Família e Sucessões.

As Etapas Essenciais do Processo de Partilha

Entenda o fluxo principal:

  1. Certidão de Óbito: O primeiro documento crucial. Sem ele, nenhum passo do inventário pode ser dado.
  2. Habilitação de Herdeiros: É o momento em que o advogado apresenta todos os documentos que comprovam quem são os herdeiros legítimos do falecido.
  3. Relação e Avaliação de Bens: Um levantamento detalhado de todo o patrimônio deixado (imóveis, veículos, contas bancárias, investimentos, joias, etc.), que é então avaliado para determinar seu valor de mercado.
  4. Pagamento de Dívidas e Impostos: Antes que a herança possa ser dividida, é preciso quitar todas as dívidas do falecido e pagar o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD), que é um tributo estadual. Importante: As dívidas do falecido são pagas com os bens da herança, e não com o patrimônio pessoal dos herdeiros.
  5. A Partilha Efetiva: Finalmente, após todas as dívidas e impostos serem pagos e os bens avaliados, a divisão dos bens entre os herdeiros é formalizada, seja por acordo no cartório ou por decisão judicial.

Custos e Prazos: O Que Esperar?

  • Custos: Você terá que considerar:
    • ITCMD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação): Varia de estado para estado (no Brasil, pode ir de 2% a 8% sobre o valor dos bens).
    • Emolumentos de Cartório ou Custas Judiciais: Taxas para o processo em cartório ou na justiça.
    • Honorários Advocatícios: O valor cobrado pelo seu advogado.
  • Prazos: O inventário deve ser aberto em até 60 dias após o falecimento. O atraso pode gerar multas sobre o ITCMD. A duração do processo varia muito: um inventário extrajudicial pode levar de 1 a 6 meses, enquanto um judicial pode se estender por anos, dependendo da complexidade e dos eventuais litígios.

E se Houver Desacordo ou Bens Indivisíveis?

Conflitos são comuns, mas há soluções:

  • Bens Indivisíveis: Se um imóvel não pode ser dividido, as opções incluem:
    • Um herdeiro compra a parte dos outros (adjudicação).
    • O bem é vendido para terceiros e o valor é dividido.
    • Se não houver acordo, a venda pode ser determinada judicialmente.
  • Desacordo: A mediação familiar é uma ferramenta poderosa para evitar litígios prolongados. Um mediador imparcial ajuda os irmãos a dialogar e a encontrar soluções em conjunto, antes que o caso se arraste na justiça.

4. Perguntas Frequentes Sobre Herança Entre Irmãos

Vamos responder às dúvidas mais comuns para clarear ainda mais o tema.

Irmãos Herdam Sempre em Partes Iguais?

Não necessariamente. Depende de diversos fatores:

  • Existência de outros herdeiros: Se há filhos, pais ou cônjuge vivo, os irmãos podem não herdar.
  • Testamento: Um testamento pode destinar a parte disponível da herança de forma desigual, beneficiando um irmão ou terceiro.
  • Tipo de irmãos: Como vimos, irmãos unilaterais (meio-irmãos) herdam metade do que os irmãos bilaterais recebem.

É Obrigatória a Presença de um Advogado?

Sim, a assistência de um advogado é fundamental e obrigatória em qualquer tipo de inventário e partilha, seja ele judicial ou extrajudicial (em cartório). O profissional irá garantir que todos os procedimentos legais sejam cumpridos corretamente e que os direitos de todos os herdeiros sejam protegidos.

Um Irmão Pode Ser Deserdado?

A deserdação é possível, mas é uma medida extrema e muito rara no direito brasileiro. Para que ocorra, devem existir causas muito específicas, previstas em lei (como agressão física, injúria grave, etc.), e elas precisam ser formalizadas em testamento e comprovadas judicialmente. Não é uma decisão simples nem comum.

O Que Acontece se um Irmão Faleceu Antes dos Pais?

Se um dos irmãos faleceu antes do(s) pai(s) que deixou a herança, os filhos desse irmão pré-falecido (seus sobrinhos) herdam por representação. Isso significa que eles "assumem" o lugar do pai ou mãe falecido na linha sucessória, recebendo a parte da herança que caberia a ele.

O Uso Exclusivo de Bens da Herança por um Irmão é Permitido?

Durante o período em que os bens da herança ainda não foram partilhados (período de indivisão), se um dos irmãos usar exclusivamente um imóvel que pertence à herança (por exemplo, morar na casa do falecido), ele pode ter que pagar um aluguel proporcional aos demais herdeiros pela utilização desse bem. Isso visa a evitar o enriquecimento sem causa e garantir a equidade.

5. Evitando Conflitos e Garantindo uma Partilha Justa

A partilha pode ser um desafio, mas com as estratégias certas, é possível buscar a harmonia e a justiça para todos.

A Importância do Diálogo e da Mediação Familiar

Conflitos sobre herança podem destruir famílias. Por isso, incentivar a comunicação aberta e honesta entre os irmãos é crucial. Se as conversas se tornarem difíceis, considere a mediação familiar. Um mediador profissional, neutro e imparcial, pode ajudar a facilitar o diálogo, identificar os pontos de interesse de cada um e guiar a família para soluções pacíficas e acordos justos, evitando a necessidade de um litígio judicial.

Planejamento Sucessório: A Melhor Prevenção

A forma mais eficaz de evitar futuros conflitos e burocracias é o planejamento sucessório feito em vida pelo titular dos bens. Ferramentas como:

  • Testamento: Permite expressar sua vontade sobre a parte disponível da herança.
  • Doações em vida com cláusulas específicas: Podem antecipar a legítima ou beneficiar alguém da parte disponível.
  • Holding Familiar: Uma estrutura jurídica que organiza e protege o patrimônio, facilitando a sucessão. Com um bom planejamento, é possível minimizar impostos, reduzir custos de inventário e, principalmente, garantir que a vontade do falecido seja clara, diminuindo as chances de desentendimentos entre os herdeiros.

Acompanhamento Jurídico Especializado: Seu Aliado Essencial

Ter um advogado especializado em direito sucessório ao seu lado é mais do que uma exigência legal; é uma estratégia inteligente. Esse profissional não só cuida dos trâmites burocráticos, mas também:

  • Orienta sobre os direitos e deveres de cada um.
  • Ajuda a interpretar a lei de forma correta.
  • Busca a melhor solução para a família, muitas vezes atuando como um mediador indireto.
  • Protege os interesses de seus clientes, garantindo que a partilha seja justa e eficiente.

Conclusão

A partilha de herança entre irmãos é, sem dúvida, um dos processos mais delicados e complexos do direito sucessório. No entanto, compreender seus meandros, as opções legais e as formas de prevenção de conflitos é o primeiro passo para garantir que a divisão do legado familiar seja conduzida com justiça, transparência e o máximo de serenidade possível. Lidar com a herança é, em última instância, honrar a memória de quem partiu, garantindo que sua vontade seja respeitada e que a família encontre um caminho para seguir em frente.

Perguntas Frequentes

Irmãos Herdam Sempre em Partes Iguais?
Não, a partilha entre irmãos pode não ser igual. Depende da existência de outros herdeiros (como filhos ou cônjuge), da existência de um testamento, e se são irmãos bilaterais (mesmos pais) ou unilaterais (meio-irmãos), pois estes últimos herdam metade do que os primeiros.
É Obrigatória a Presença de um Advogado?
Sim, a assistência de um advogado é obrigatória em qualquer tipo de inventário e partilha, seja ele extrajudicial (em cartório) ou judicial. O profissional garante a conformidade legal e protege os direitos dos herdeiros.
Um Irmão Pode Ser Deserdado?
A deserdação é uma medida extrema e rara, permitida apenas em casos específicos previstos em lei (como agressão ou injúria grave) e deve ser formalizada em testamento, além de comprovada judicialmente.
O Que Acontece se um Irmão Faleceu Antes dos Pais?
Nesse caso, os filhos desse irmão (seus sobrinhos) herdam por representação, ou seja, eles assumem a parte da herança que caberia ao pai ou mãe falecido.
O Uso Exclusivo de Bens da Herança por um Irmão é Permitido?
Durante o período de indivisão da herança, se um herdeiro usa um bem exclusivamente, ele pode ter que pagar um aluguel proporcional aos demais herdeiros pelo uso, para garantir a equidade e evitar o enriquecimento sem causa.
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