Direito do Consumidor

Chamamento ao Processo: O Guia Completo para Réus no Novo CPC

Equipe SolucioneAqui
7 de dezembro de 2025
11 min de leitura
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Foto: Ivan S/Pexels

Principais Pontos

  • O Chamamento ao Processo é uma ferramenta do CPC que permite ao réu convocar coobrigados para a mesma ação, evitando pagar a dívida sozinho.
  • Sua aplicação é restrita a três hipóteses: fiador chamando afiançado, fiador chamando outros fiadores, e devedores solidários chamando os demais codevedores.
  • O pedido deve ser feito obrigatoriamente na contestação, sendo o prazo fatal para sua proposição.
  • A sentença proferida com o Chamamento ao Processo vale como título executivo para o réu que pagar a dívida, permitindo o direito de regresso contra os chamados.
  • Não é admitido nos Juizados Especiais devido à sua simplicidade e celeridade, nem na fase de execução do processo.

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1. Introdução: Quando Compartilhar a Dívida É a Melhor Estratégia Legal

Você foi acionado judicialmente por uma dívida, mas sabe que a responsabilidade não é exclusivamente sua? Sentir-se sozinho no polo passivo de uma ação judicial pode ser assustador e injusto. Felizmente, o Código de Processo Civil (CPC oferece uma ferramenta poderosa para esses momentos: o Chamamento ao Processo.

Este instituto jurídico permite que você, na posição de réu, inclua outros devedores ou coobrigados na mesma ação, garantindo que a responsabilidade seja discutida e, eventualmente, compartilhada entre todos os envolvidos. Neste guia completo, desvendaremos o que é o Chamamento ao Processo, quando e como utilizá-lo para proteger seus direitos e assegurar uma distribuição equitativa das obrigações.

2. O Que É o Chamamento ao Processo e Por Que Ele É Crucial para Você?

Em termos simples, o Chamamento ao Processo é uma intervenção de terceiro que permite ao réu de uma ação judicial "convocar" outros coobrigados para figurar no polo passivo da mesma demanda. Diferente de outras intervenções provocadas por terceiros, esta é uma iniciativa do réu, com o objetivo de ampliar a discussão da responsabilidade.

Sua natureza jurídica é a de uma intervenção provocada (requerida pelo réu) e facultativa (cabe ao réu decidir se a utiliza ou não. É uma ferramenta estratégica que visa a justiça e a economia processual.

A finalidade principal do Chamamento ao Processo é:

  • Evitar que o réu pague sozinho uma dívida compartilhada: Se outros são responsáveis, a ação deve abranger todos.
  • Promover a economia processual: Em vez de múltiplas ações (uma do credor contra o réu e outra do réu contra os coobrigados, tudo se resolve em um único processo.
  • Garantir o direito de regresso dentro da mesma sentença: A decisão judicial já reconhece a responsabilidade dos chamados, facilitando a recuperação do valor pago pelo réu original.
  • Expandir o polo passivo: Há a formação de um litisconsórcio passivo, onde todos os devedores respondem conjuntamente.

3. Quando Acionar o Chamamento ao Processo? As Hipóteses do Art. 130 do CPC

A chave para o cabimento do Chamamento ao Processo reside na observância das três situações específicas previstas no Art. 130 do Código de Processo Civil. Fora dessas hipóteses, a intervenção será inadmissível.

1. O Fiador Chamando o Afiançado

Esta é a situação mais comum. Se você é fiador de um contrato (por exemplo, de aluguel ou empréstimo e o credor o processa diretamente para cobrar a dívida, você pode chamar o afiançado (o devedor principal para integrar o polo passivo da ação. Dessa forma, o devedor principal estará ciente da dívida e, caso você seja obrigado a pagar, terá um título executivo contra ele na mesma sentença.

2. Um Fiador Chamando Outros Fiadores

Quando existem vários fiadores para uma mesma dívida (cofiança, e apenas um deles é acionado judicialmente pelo credor, esse fiador pode chamar os demais cofiadores para a ação. Isso garante que a responsabilidade, caso seja solidária entre eles, seja discutida de forma conjunta e que cada um contribua com sua quota-parte, ou que o fiador que pagar possa cobrar dos outros na mesma decisão.

3. Devedores Solidários Chamando os Demais

Em uma obrigação solidária, o credor tem o direito de cobrar a totalidade da dívida de qualquer um dos devedores. Se você é um dos devedores solidários e é acionado sozinho, pode chamar os outros codevedores solidários para compor o polo passivo da ação. Isso assegura que todos os responsáveis sejam parte do processo, e que a sentença eventualmente reconheça a responsabilidade de cada um, facilitando o posterior direito de regresso daquele que efetivamente arcar com o pagamento.

4. Como Fazer o Chamamento ao Processo: O Passo a Passo no CPC

Utilizar corretamente o Chamamento ao Processo exige atenção aos detalhes, especialmente quanto ao momento e ao procedimento. Erros podem levar à perda dessa importante ferramenta.

Momento Certo: A Contestação é o Prazo Fatal

O Chamamento ao Processo deve ser requerido pelo réu em sua contestação, que é a peça de defesa apresentada após a citação. Este é o único momento processual para fazê-lo. Uma vez encerrado o prazo para a contestação, o direito de requerer o Chamamento ao Processo preclui, ou seja, perde-se a oportunidade de utilizá-lo naquele processo. É importante frisar que o juiz não pode realizar o Chamamento de ofício, ou seja, por sua própria iniciativa.

O Procedimento: Requerendo na Peça de Defesa

Para requerer o Chamamento ao Processo, o réu deve incluir o pedido como uma preliminar ou como um tópico específico em sua contestação. É fundamental:

  • Qualificar os chamados: Informar o nome completo, CPF/CNPJ, endereço e demais dados de identificação dos coobrigados que serão convocados.
  • Expor a situação: Justificar o cabimento do Chamamento, explicando em qual das hipóteses do Art. 130 do CPC o caso se enquadra (ex: você é fiador e está chamando o devedor principal.
  • Formular o pedido: Requerer a citação dos chamados para que integrem o polo passivo da ação e apresentem sua defesa.

Após o pedido, o juiz analisará a pertinência e, se deferir, ordenará a citação dos coobrigados.

Os Prazos de Citação: Não Perca a Oportunidade

O Art. 131 do CPC estabelece que a citação dos chamados deve ser promovida pelo réu (chamante no prazo de 30 dias, contados do despacho que deferir o Chamamento. Excepcionalmente, esse prazo pode ser estendido para 2 meses se o chamado residir em outra comarca, seção ou zona judiciária, ou em lugar incerto. O não cumprimento do prazo para promover a citação dos chamados pode acarretar a perda do direito ao Chamamento ao Processo, com o prosseguimento da ação apenas contra o réu original.

5. Os Efeitos da Sentença: Seu Direito de Regresso Assegurado

Um dos maiores benefícios do Chamamento ao Processo reside nos efeitos da sentença final. Conforme o Art. 132 do CPC, se a ação for julgada procedente contra o réu (chamante e os chamados, e o réu original for obrigado a pagar a dívida sozinho, a própria sentença servirá como título executivo contra os demais coobrigados.

Isso significa que o réu que efetuou o pagamento não precisará mover uma nova ação judicial para exercer seu direito de regresso. Ele poderá, na fase de cumprimento de sentença, exigir a totalidade do valor do devedor principal (se for fiador ou a quota-parte dos codevedores solidários. Essa é uma grande vantagem, pois economiza tempo, dinheiro e evita a complexidade de um novo processo.

Com o Chamamento ao Processo, há a formação de um litisconsórcio passivo facultativo ulterior, o que significa que o polo passivo da ação é ampliado para incluir os chamados, e a decisão judicial vinculará a todos, solucionando de uma vez a questão da responsabilidade.

6. Chamamento ao Processo vs. Denunciação da Lide: Entenda as Diferenças Cruciais

É comum haver confusão entre o Chamamento ao Processo e a Denunciação da Lide, pois ambos são institutos de intervenção de terceiros provocada pelo réu. Contudo, suas finalidades e hipóteses de cabimento são distintas:

  • Chamamento ao Processo: Tem como foco a solidariedade entre devedores e a condenação conjunta. O objetivo é que o chamado integre o polo passivo principal e, idealmente, pague sua parte da dívida na mesma ação. A relação entre o réu e o chamado é de codevedores da mesma obrigação ou fiador-afiançado.

  • Denunciação da Lide: Tem como foco o direito de regresso por perdas e danos ou garantia. O objetivo é que, caso o denunciante seja condenado, ele possa, na mesma ação, cobrar do denunciado o ressarcimento pelo prejuízo. A relação entre o réu e o denunciado é de garantia ou responsabilidade por perdas e danos (ex: seguradora, vendedor que garantiu o saneamento do vício.

Em resumo, enquanto o Chamamento ao Processo busca compartilhar a dívida original, a Denunciação da Lide busca o ressarcimento de quem pagou por outro.

7. Onde o Chamamento ao Processo NÃO Cabe (e Por Que

Embora seja uma ferramenta útil, o Chamamento ao Processo não é aplicável em todas as situações. É crucial conhecer suas limitações para evitar frustrações e atrasos processuais.

  • Juizados Especiais: Não é admitido nos Juizados Especiais Cíveis (JEC. A Lei nº 9.099/1995, que rege esses juizados, prioriza a simplicidade, informalidade e celeridade, não comportando as complexidades das intervenções de terceiros (Art. 10 da Lei. Nestes casos, o réu que pagar terá que mover uma ação autônoma de regresso.

  • Fase de Execução: O Chamamento ao Processo é um instituto da fase de conhecimento do processo, ou seja, da etapa em que se discute quem deve e quanto deve. Ele não se aplica à fase de execução, que é o momento de cumprimento da obrigação já estabelecida por um título executivo (sentença ou documento.

  • Inversão dos Polos: O Chamamento não permite uma "inversão" da sua lógica. Por exemplo, o devedor principal não pode chamar o fiador. A prerrogativa é sempre do réu que, de alguma forma, é prejudicado por não ter os outros coobrigados no processo. Apenas o fiador pode chamar o afiançado, e não o contrário.

8. Por Que Utilizar o Chamamento ao Processo? Vantagens para o Réu

As vantagens de se valer do Chamamento ao Processo são significativas e podem fazer uma grande diferença no desfecho de uma demanda judicial para o réu:

  • Economia de tempo e recursos: Evita a necessidade de ingressar com uma nova ação de regresso após o pagamento da dívida.
  • Segurança jurídica: Uma única sentença resolve a questão da responsabilidade para todos os envolvidos, prevenindo decisões contraditórias.
  • Efetividade na recuperação do valor pago: A própria sentença já constitui título executivo, facilitando a cobrança dos chamados.
  • Redução do risco: Diminui a chance de o réu arcar sozinho com uma dívida que não é sua exclusiva responsabilidade.
  • Transparência e equidade: Leva a discussão para o foro adequado, com todos os responsáveis presentes, buscando a justa distribuição do ônus.

9. Conclusão: Uma Ferramenta Estratégica para Proteger Seus Interesses

O Chamamento ao Processo é, sem dúvida, um direito e uma estratégia processual de grande valia para o réu que se vê na posição de arcar sozinho com uma dívida compartilhada. Compreender o que é, quando e como acioná-lo, conforme as previsões do Novo CPC, é fundamental para qualquer um que esteja no polo passivo de uma ação judicial com coobrigados.

Ao utilizar o Chamamento ao Processo, você não apenas protege seus próprios interesses, mas também contribui para a eficiência do sistema judiciário, concentrando discussões e evitando a proliferação de ações. A sua aplicação correta pode mudar o rumo de um processo, garantindo justiça e equidade na distribuição das responsabilidades.

Perguntas Frequentes

O que é o Chamamento ao Processo no Novo CPC?
O Chamamento ao Processo é uma modalidade de intervenção de terceiro, prevista no Novo Código de Processo Civil (CPC), que permite ao réu de uma ação judicial convocar outros devedores ou coobrigados para figurar no polo passivo da mesma demanda. Seu objetivo é que a responsabilidade pela dívida seja compartilhada, ou que o réu possa exercer seu direito de regresso dentro do próprio processo.
Quando posso utilizar o Chamamento ao Processo?
Conforme o Art. 130 do CPC, o Chamamento ao Processo é cabível em três situações específicas: quando o fiador é acionado pelo credor e chama o devedor principal; quando um fiador, acionado sozinho, chama os demais fiadores; e quando um devedor solidário é processado e chama os outros devedores solidários para a ação.
Qual o prazo para requerer o Chamamento ao Processo?
O Chamamento ao Processo deve ser requerido pelo réu na sua contestação, que é a peça de defesa. Este é o único momento processual para fazê-lo, sob pena de preclusão. O juiz não pode determinar o Chamamento de ofício.
Qual a diferença entre Chamamento ao Processo e Denunciação da Lide?
A principal diferença reside na finalidade. O Chamamento ao Processo busca a condenação conjunta de coobrigados solidários, formando um litisconsórcio passivo, para que a dívida seja compartilhada. A Denunciação da Lide, por outro lado, visa garantir o direito de regresso do denunciante contra o denunciado por perdas e danos decorrentes de eventual condenação, funcionando como uma ação autônoma embutida no processo principal.
O Chamamento ao Processo pode ser utilizado nos Juizados Especiais?
Não, o Chamamento ao Processo não é admitido nos Juizados Especiais. A Lei nº 9.099/1995, que rege os Juizados, preza pela simplicidade e celeridade processual, o que inviabiliza a admissão de intervenções de terceiros como o Chamamento ao Processo (Art. 10 da Lei).
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