Direito Trabalhista

Desvio de Função: Identifique, Entenda Seus Direitos e Busque Justiça

Equipe SolucioneAqui
1 de janeiro de 2026
10 min de leitura
Two professionals engaged in a discussion in a modern office setting through a glass window.
Foto: Marcelo Dias/Pexels

Principais Pontos

  • Desvio de função ocorre quando você exerce tarefas de um cargo diferente e superior ao contratado, sem formalização ou aumento salarial.
  • É crucial diferenciar desvio de função de acúmulo de função, pois os direitos e as formas de reparação podem variar significativamente.
  • Você tem direito a pleitear diferenças salariais retroativas, indenização por danos morais e até a rescisão indireta do contrato de trabalho.
  • A responsabilidade de provar o desvio recai sobre o empregado, exigindo a coleta de documentos, comunicações e testemunhos.
  • Busque orientação jurídica especializada para analisar seu caso e defender seus direitos dentro dos prazos legais (prescrição de 5 anos).

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Introdução: Você Desempenha Outras Funções do Que Foi Contratado? Entenda o Desvio de Função!

Imagine ser contratado para uma função específica, com responsabilidades claras e um salário correspondente. No entanto, dia após dia, você se vê realizando tarefas completamente diferentes, que pertencem a outro cargo – muitas vezes com mais responsabilidade, maior complexidade e sem o devido reconhecimento ou salário.

Essa é a realidade do "desvio de função", uma prática comum e, infelizmente, ilegal no ambiente de trabalho brasileiro. Essa situação gera frustração, exploração e graves implicações legais para o empregador, além de prejuízos ao trabalhador.

Este guia completo irá desvendar o que é o desvio de função, como diferenciá-lo de outras situações, quais são os seus direitos como trabalhador e, principalmente, o passo a passo para buscar a reparação que você merece. Não permita que seus direitos sejam ignorados!

1. Desvio de Função: O Que Realmente Significa?

O ambiente de trabalho moderno exige flexibilidade, mas há um limite para o que pode ser exigido de um funcionário. O desvio de função ocorre quando esse limite é claramente ultrapassado, violando o contrato de trabalho e os direitos do empregado.

Onde está o Problema? Definição de Desvio de Função

O desvio de função acontece quando o empregado, sem qualquer alteração formal em seu contrato de trabalho e sem o devido reajuste salarial, deixa de exercer as suas funções originais e passa a desempenhar atividades de um cargo completamente diferente e, geralmente, superior. Isso significa que você foi contratado para um cargo A, mas na prática, executa as tarefas de um cargo B, que exige mais qualificação, responsabilidade ou experiência, e que normalmente tem um salário maior.

Exemplo Prático: Um auxiliar administrativo contratado para organizar documentos e atender chamadas que, de repente, assume integralmente as responsabilidades de um analista financeiro, elaborando planilhas complexas, fazendo projeções e gerenciando contas, sem ter seu cargo ou salário alterados.

Desvio de Função vs. Acúmulo de Função: Uma Diferença Crucial

É muito comum confundir desvio de função com acúmulo de função, mas a distinção é fundamental, pois as implicações legais e os direitos podem variar.

  • Desvio de Função: Caracteriza-se pelo abandono da função original para o desempenho exclusivo ou predominante de outra. Você deixa de fazer o que foi contratado para fazer algo diferente.
    • Exemplo: Um recepcionista que passa a atuar unicamente como gerente de RH, realizando todas as tarefas do cargo de RH.
  • Acúmulo de Função: Ocorre quando o empregado mantém suas funções originais e, além delas, recebe novas tarefas não previstas em seu contrato de trabalho, que exigem maior qualificação ou representam um acréscimo significativo de trabalho.
    • Exemplo: Uma recepcionista que continua atendendo o telefone e visitantes, mas também é encarregada de fazer as compras de material de escritório e organizar eventos da empresa, tarefas que não faziam parte de suas atribuições iniciais.

Por que a distinção é importante? A lei e a jurisprudência aplicam diferentes entendimentos e concedem indenizações de forma distinta para cada caso. No desvio, a discussão é sobre a diferença salarial entre os cargos. No acúmulo, busca-se um adicional pela sobrecarga de trabalho.

Quando Não Configura Desvio de Função?

Nem toda tarefa diferente significa desvio. Algumas situações não configuram essa irregularidade:

  • Tarefas esporádicas ou pontuais: Cobrir um colega de férias ocasionalmente ou ajudar em um projeto específico por um curto período, desde que não se torne uma rotina e as novas tarefas estejam dentro de uma compatibilidade razoável com a função principal. O que determina é a regra e não a exceção.
  • Flexibilidade inerente a algumas funções: Certos cargos, por sua natureza, exigem uma gama mais ampla de atividades, ou a empresa tem uma cultura de "mão na massa". No entanto, essa flexibilidade deve ter limites e não pode descaracterizar a função para a qual o empregado foi contratado.

2. Seus Direitos em Caso de Desvio de Função: A Lei ao Seu Lado

Se você identificou que está em desvio de função, saiba que a lei está do seu lado. Embora a CLT não utilize o termo "desvio de função" explicitamente, a legislação trabalhista e a vasta jurisprudência dos tribunais garantem a proteção do trabalhador.

A Legislação e Jurisprudência que Protegem o Trabalhador

  • Art. 468 da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho): Este artigo veda qualquer alteração nas condições do contrato de trabalho que cause prejuízo ao empregado, direta ou indiretamente. O desvio de função, ao exigir mais sem a devida remuneração, é claramente prejudicial.
  • Art. 483, alínea "a" da CLT: Serve de base para a Rescisão Indireta do Contrato de Trabalho. Se o empregador exige serviços superiores às suas forças, defesos por lei, contrários aos bons costumes ou alheios ao contrato, o empregado pode considerar o contrato rescindido e pleitear as devidas indenizações.
  • Art. 884 e 927 do Código Civil: O desvio de função pode configurar "enriquecimento sem causa" por parte do empregador (art. 884) e, em casos de dano, gerar o dever de reparação (art. 927), especialmente se houver prejuízo moral.
  • OJ nº 125 da SDI-1 do TST (Orientação Jurisprudencial da Subseção I Especializada em Dissídios Individuais do Tribunal Superior do Trabalho): Esta OJ estabelece que o desvio de função dá direito ao empregado a receber as diferenças salariais, não ao reenquadramento no novo cargo. Ou seja, você recebe a diferença de dinheiro, mas o juiz não pode obrigar a empresa a mudar seu cargo formalmente, embora isso possa ser um acordo.
  • Súmula nº 378 do TST: Reconhece o direito às diferenças salariais decorrentes do desvio de função, solidificando o entendimento dos tribunais sobre a questão.

O Que Você Pode Reivindicar na Justiça?

Ao comprovar o desvio de função, o trabalhador pode pleitear:

  • Diferenças Salariais Retroativas: O principal pedido é o pagamento da diferença entre o salário que você recebeu e o salário do cargo que você efetivamente exerceu, retroativo aos últimos 5 anos.
    • Reflexos em Todas as Verbas: Essas diferenças devem gerar reflexos em todas as verbas trabalhistas que você recebeu, como 13º salário, férias + 1/3, FGTS + 40%, horas extras, aviso prévio, entre outros.
  • Indenização por Danos Morais: Em situações onde o desvio de função gerou sobrecarga excessiva, constrangimento, humilhação, estresse ou outro abalo psicológico comprovado, você pode requerer uma indenização por danos morais.
  • Rescisão Indireta do Contrato de Trabalho: Conhecida como a "justa causa do empregador", permite que o trabalhador encerre o contrato de trabalho por culpa da empresa, garantindo o recebimento de todos os direitos de uma demissão sem justa causa (aviso prévio, multa de 40% do FGTS, saque do FGTS, seguro-desemprego, etc.). Você sai da empresa e ainda recebe todos os seus direitos.
  • Reconhecimento da Função Efetivamente Exercida: Embora não resulte em reenquadramento formal na CTPS por determinação judicial, o reconhecimento da função pode ser importante para seu histórico profissional e para cálculos futuros.

3. Como Provar o Desvio de Função na Justiça? O Ônus da Prova

A prova é a chave para o sucesso em uma ação trabalhista por desvio de função. Sem provas robustas, mesmo que a situação seja evidente para você, pode ser difícil convencer um juiz.

O Que é o Ônus da Prova?

No Direito do Trabalho, o ônus da prova (a responsabilidade de provar os fatos alegados) recai sobre o empregado. Ou seja, é você quem precisa apresentar as evidências de que estava em desvio de função. Isso exige organização e cuidado na coleta de informações.

Evidências Essenciais para o Processo

Quanto mais provas você tiver, maior a chance de sucesso. Comece a coletar essas evidências o quanto antes:

  • Documentos Contratuais: Seu contrato de trabalho, Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) e a descrição do cargo para o qual você foi contratado, para comparar com as funções que você efetivamente exercia.
  • Comunicações: E-mails, mensagens de texto (WhatsApp, Telegram), áudios, vídeos ou qualquer comunicação que mostre as tarefas que lhe foram atribuídas ou que você estava realizando. Salve prints de conversas, e-mails de solicitação de tarefas, etc.
  • Registros de Atividade: Ordens de serviço, relatórios que você preencheu, atas de reunião com sua assinatura, ou qualquer documento que demonstre as atividades que você desempenhava, especialmente se elas forem alheias ao seu cargo formal.
  • Testemunhas: Colegas de trabalho (atuais ou ex-colegas), superiores hierárquicos ou até clientes/fornecedores que possam confirmar as atividades que você realizava. O testemunho é uma das provas mais fortes na Justiça do Trabalho.
  • Descrição de Cargos: Se a empresa possuir um plano de cargos e salários, um regulamento interno ou organogramas que detalhem as atribuições de cada cargo, isso pode ser uma prova valiosa.
  • Contracheques: Para comprovar o salário pago e as diferenças com o cargo para o qual você foi desviado.
  • Perícia Técnica: Em alguns casos mais complexos, o juiz pode determinar uma perícia técnica no local de trabalho para analisar e comprovar as funções exercidas, comparando-as com as de outros cargos na empresa ou no mercado.

Como é Calculada a Indenização por Desvio de Função?

O cálculo da indenização busca compensar o trabalhador pelo trabalho exercido sem a devida remuneração.

  • Base de Cálculo: A indenização é calculada com base na diferença salarial entre o salário que você recebia e o salário que seria devido ao cargo efetivamente exercido. Essa diferença é apurada retroativamente, geralmente limitada aos últimos 5 anos de contrato de trabalho.
  • Percentuais Adicionais: Em alguns casos, especialmente quando não há um cargo idêntico na empresa para comparar, juízes podem conceder um adicional (geralmente entre 10% e 40% do salário-base) para compensar o desvio, dependendo da complexidade das novas tarefas e do impacto em sua rotina.
  • Fatores Determinantes: O tempo de duração do desvio, a robustez das provas apresentadas e o impacto na sua carreira ou saúde são fatores que o juiz considerará para determinar o valor final da indenização, incluindo possíveis danos morais.
  • Prescrição: Fique atento aos prazos! Você tem até 5 anos para reclamar seus direitos a partir do momento em que o desvio de função ocorreu, limitado a 2 anos após o fim do contrato de trabalho. Não perca esses prazos, ou seus direitos podem prescrever.

4. Desvio de Função: Como as Empresas Podem Evitar Passivos Trabalhistas

Para as empresas, evitar o desvio de função não é apenas uma questão de ética, mas de conformidade legal e gestão de riscos. A prevenção é sempre o melhor caminho para evitar ações trabalhistas e prejuízos financeiros.

A Importância de um Plano de Cargos e Salários Claro

Um plano de cargos e salários bem estruturado é a principal ferramenta para prevenir o desvio de função.

  • Benefícios: Ele define claramente as responsabilidades, requisitos e a remuneração para cada cargo dentro da organização. Isso evita ambiguidades, delimita as atribuições de cada um e serve como base para contratações e promoções.
  • Evita Conflitos: Com funções bem definidas, tanto o empregado quanto o empregador têm clareza sobre o que é esperado, minimizando a chance de ocorrer o desvio ou acúmulo de tarefas de forma indevida.

Formalização de Alterações Contratuais

Qualquer mudança significativa nas funções de um empregado, que resulte em um novo cargo ou aumento substancial de responsabilidades, deve ser formalizada.

  • Aditivos Contratuais: Um aditivo ao contrato de trabalho deve ser feito, detalhando as novas atribuições, o novo cargo e, fundamentalmente, o ajuste salarial compatível com as novas responsabilidades.
  • Ajuste Salarial Compatível: É crucial que o salário seja revisado para refletir o valor de mercado e a complexidade das novas funções. A ausência desse ajuste é um dos pilares da reclamação por desvio de função.
  • Transparência: A comunicação transparente e a formalização de todas as mudanças garantem segurança jurídica para ambas as partes e demonstram o compromisso da empresa com a legalidade.

Conclusão: Não Deixe Seus Direitos de Lado

O desvio de função é uma violação séria dos direitos trabalhistas, com consequências significativas e negativas tanto para o empregado, que é explorado, quanto para o empregador, que pode enfrentar pesadas condenações.

Reconhecer essa situação e entender seus direitos é o primeiro passo crucial para buscar justiça. A complexidade do tema e a necessidade de comprovação robusta exigem uma análise cuidadosa e, muitas vezes, a orientação de um profissional. Se você se identifica com esta situação e sente que está exercendo funções alheias ao seu contrato, lembre-se de que a omissão pode custar-lhe anos de injustiça, prejuízos financeiros e um desgaste emocional desnecessário.

Seus direitos são válidos e merecem ser protegidos. Procure um advogado trabalhista de confiança para analisar seu caso, reunir as provas necessárias e ajudá-lo a pleitear a reparação que você merece. Não espere a situação se agravar; aja preventivamente para defender o seu valor e a sua dignidade no trabalho.

Perguntas Frequentes

O que é desvio de função?
Desvio de função ocorre quando um empregado, sem alteração contratual e salarial, passa a exercer atividades de um cargo diferente e, geralmente, superior ao que foi contratado inicialmente.
Qual a diferença entre desvio e acúmulo de função?
Desvio de função é a mudança completa para outro cargo, enquanto acúmulo de função é o acréscimo de novas tarefas às já existentes, sem necessariamente mudar de cargo.
Quais direitos tenho em caso de desvio de função?
Sim, você pode pedir diferenças salariais retroativas (geralmente dos últimos 5 anos), indenização por danos morais (se comprovado o abalo) e até a rescisão indireta do contrato de trabalho, que garante todos os direitos de uma demissão sem justa causa.
Como posso provar o desvio de função na justiça?
Você pode provar o desvio de função reunindo documentos como seu contrato de trabalho, e-mails, mensagens, relatórios de atividade, contracheques e, principalmente, obtendo testemunhos de colegas de trabalho que confirmem suas funções.
Qual o prazo para reclamar meus direitos por desvio de função?
Você tem até 5 anos para reclamar seus direitos a partir do momento em que o desvio de função ocorreu, e até 2 anos após o término do contrato de trabalho, caso o desvio tenha ocorrido durante a vigência do contrato.
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